Sabe-se que o leite materno é considerado o melhor alimento para o início da alimentação de um bebê e que, além disso, possui efeitos biológicos incomparáveis, impulsionados pela ação combinada de seus componentes nutricionais e bioativos.

A origem das populações microbianas no leite humano não é totalmente compreendida e permanece discutível. No entanto, foi proposto que sua origem se dá endogenamente, por meio de uma via complexa que envolve células imunes, ou ainda na pele da mãe, na boca do bebê, ou do próprio tecido mamário.

O leite materno é um nicho para centenas espécies bacterianas e abriga cerca de 1000 unidades formadoras de colônias de bactérias/mL.

Uma revisão sobre a diversidade de fatores que influenciam a composição do leite humano foi recentemente elaborada por Zimmermann e Curtis em 2020. Nesta revisão de 44 estudos reconheceu-se algumas evidências de que a idade gestacional, sexo infantil, modo de entrega, estágio de lactação, dieta, índice de massa corporal, composição do leite materno, localização geográfica, infecção por HIV e método de coleta afetam a composição da microbiota do leite materno. No entanto, muitos estudos eram pequenos e as descobertas possivelmente conflitantes, indicando a necessidade de novas pesquisas.

Oligossacarídeos do leite humano:

Além do equilíbrio ideal de nutrientes e da abundância de microorganismos presentes no leite humano tornando-o um alimento perfeito e um meio ideal para crescimento e imunidade, também existem múltiplos componentes bioativos, como imunoglobulinas, citocinas, microRNAs, lactoferrina, dentre outros.

Os oligossacarídeos do leite humano (OLHs) formam uma categoria de glicanos não conjugados, multifuncionais, não digeríveis e estruturalmente diversos que são exclusivos dos humanos. Quantitativamente, os OLHs representam cerca de 20% do conteúdo total de carboidratos do leite materno e são o terceiro maior componente sólido.

Essencialmente, os OLHs servem como substratos metabólicos para o crescimento de microrganismos benéficos no intestino infantil.

Em lactentes amamentados, as bifidobactérias são predominantes, e tal dominância é resultado da presença de um agente bifidogênico no leite humano. Os OLHs constituem esse agente, pelo qual são fermentados por espécies bifidobacterianas. Os principais produtos dessa fermentação são os ácidos acético e lático, que reduzem o pH do intestino, inibindo o crescimento de patógenos. Além disso, outros ácidos graxos de cadeia curta são formados por fermentação, como os ácidos butírico e propiônico, onde o ácido butírico é uma importante fonte de energia para os colonócitos. Conseqüentemente, os OLHs são a fonte de moléculas essenciais necessárias para a manutenção da saúde intestinal.

Em resumo, o leite humano contém uma grande variedade de componentes biologicamente ativos que contribuem para múltiplas vantagens, muito além da nutrição infantil. A última década testemunhou uma explosão de pesquisas e interesse na microbiota do leite humano.

Com sua rica variedade de moléculas biologicamente ativas e benefícios demonstrados, tanto na vida do recém-nascido quanto na idade adulta, a caracterização contínua dos mecanismos pelos quais os componentes do leite aumentam o desenvolvimento, a formação da microbiota e a imunidade, está em ascensão. Investigações adicionais sobre ligações entre a microbiota do leite humano e moléculas notavelmente bioativas, como os oligossacarídeos do leite humano, são altamente justificadas.

Referências:
1- Moubareck, C.A. Human Milk Microbiota and Oligosaccharides: A Glimpse into Benefits, Diversity, and Correlations. Nutrients 2021, 13, 1123.

2- Pannaraj, P.S.; Li, F.; Cerini, C.; Bender, J.M.; Yang, S.; Rollie, A.; Adisetiyo, H.; Zabih, S.; Lincez, P.J.; Bittinger, K.; et al. Association Between Breast Milk Bacterial Communities and Establishment and Development of the Infant Gut Microbiome. JAMA Pediatr. 2017, 171, 647–654.

3- Jeurink, P.V.; van Bergenhenegouwen, J.; Jiménez, E.; Knippels, L.M.J.; Fernández, L.; Garssen, J.; Knol, J.; Rodríguez, J.M.; Martín, R. Human Milk: A Source of More Life than We Imagine. Benef. Microbes 2013, 4, 17–30.

4- Zimmermann, P.; Curtis, N. Breast Milk Microbiota: A Review of the Factors That Influence Composition. J. Infect. 2020, 81, 17–47.

5- Carrothers, J.M.; York, M.A.; Brooker, S.L.; Lackey, K.A.; Williams, J.E.; Shafii, B.; Price, W.J.; Settles, M.L.; McGuire, M.A.; McGuire, M.K. Fecal Microbial Community Structure Is Stable over Time and Related to Variation in Macronutrient and Micronutrient Intakes in Lactating Women123. J. Nutr. 2015, 145, 2379–2388.

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