A anemia ferropriva representa uma condição médica frequentemente encontrada na prática clínica.

Nos países ocidentais sua prevalência é maior em duas fases da idade pediátrica: uma ocorre entre o primeiro e o terceiro ano de vida (2,3-15%) e a outra ocorre na adolescência (3,5-13% em homens, 11-33% em mulheres). Em adultos, a prevalência é <1% em homens com idade inferior a 50 anos, 2-4% em homens com idade superior a 50 anos, 9-20% em mulheres jovens e 5-7% em mulheres pós-menopausadas.

Os mecanismos patogênicos mais comuns que levam a anemia ferropriva em adultos são o aumento do fluxo menstrual, sangramento intestinal oculto ou absorção reduzida de ferro, como ocorre na doença celíaca. Em crianças, a ingestão inadequada, a necessidade diária aumentada e a doença celíaca são as principais causas.

A doença celíaca é uma condição autoimune caracterizada por um perfil sorológico e histológico específico, desencadeado pela exposição ao glúten em indivíduos geneticamente predispostos.

A absorção do ferro, de uma maneira geral, ocorre no intestino delgado, especialmente no duodeno. Na doença celíaca, essa porção do duodeno é a região mais frequentemente afetada, resultando em uma redução na absorção de ferro e subsequente anemia por sua deficiência.

Segundo uma revisão publicada sobre o tema neste ano, a anemia ferropriva é uma das manifestações extraintestinais mais frequentes da doença celíaca. A prevalência da anemia é estimada entre 12 e 82% em pacientes com diagnóstico de doença celíaca e cerca de 46% em pacientes com doença celíaca subclínica.

O tratamento da doença celíaca é fundamentalmente dietético, consistindo na exclusão de alimentos que contenham glúten. Sabe-se que a alimentação isenta de glúten, sozinha, pode melhorar as formas leves de anemia ferropriva nesses pacientes.

A terapia mais comumente realizada para reposição oral de ferro é com sulfato ferroso, por ser mais barato, mais fácil de administrar e por não apresentar risco de eventos fatais. No entanto, sua absorção é limitada em pacientes com doença celíaca ativa e imprevisível em pacientes que seguem uma alimentação isenta de glúten. Além disso, uma baixa tolerabilidade, principalmente a nível gastrointestinal, é particularmente frequente em pacientes com doença celíaca ou com outras doenças inflamatórias intestinais.

Numerosas outras formas de ferro (bivalente ou trivalente) estão disponíveis comercialmente há alguns anos. Geralmente, esses tipos de suplementação são mais tolerados do que o sulfato ferroso, mas são inferiores na eficácia da reposição de ferro, especialmente em pessoas com doença celíaca.

No momento, não há indicações para o tratamento de anemia ferropriva em pacientes com doença celíaca com formulações intravenosas. Porém, em caso de anemia grave em pacientes com condições comprometidas, isso pode ser levado em consideração pela equipe multidisciplinar para corrigir rapidamente o quadro hematológico.

Referências:

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