O declínio cognitivo é uma condição altamente incapacitante e prevalente na população idosa, que afeta a saúde física e a qualidade de vida desta faixa-etária. Espera-se que, em 2050, o número de pessoas acima de 60 anos deva atingir cerca de 2,1 bilhões de pessoas.

A falta de farmacoterapia eficaz tem levado os pesquisadores a buscar abordagens alternativas para tratar ou prevenir o declínio cognitivo que acompanha o envelhecimento. Evidências científicas sugerem que disfunções metabólicas, como neuroinflamação, estresse oxidativo, disfunção mitocondrial ou autofagia, podem atuar potencialmente como gatilhos para o declínio cognitivo.

Além disso, a síndrome metabólica (definida como a presença de três ou mais das cinco condições médicas seguintes: obesidade abdominal, pressão alta, açúcar elevado no sangue, triglicerídeos séricos elevados – TG, lipoproteína sérica de alta densidade baixa – HDL) afeta negativamente o desempenho cognitivo e a função cerebral, possivelmente aumentando a neuroinflamação, o estresse oxidativo e o metabolismo lipídico do cérebro.

A resistência à insulina (RI, definida como a incapacidade dos tecidos-alvo periféricos de responder normalmente à insulina) é uma condição comum vivenciada na velhice e frequentemente associada à obesidade. Normalmente precede o início do diabetes tipo 2 em vários anos e é considerado um fator de risco para declínio cognitivo em populações diabéticas e não diabéticas. Na verdade, a resistência insulínica periférica, ao diminuir a sinalização da insulina no cérebro, pode alterar suas funções metabólicas, aumentando o estresse oxidativo e a neuroinflamação, eventualmente preparando o terreno para a demência e a neurodegeneração.

Assim, a neuroinflamação, o estresse oxidativo e as disfunções metabólicas envolvem uma conexão estrita entre o cérebro e a regulação metabólica geral. Além disso, mudanças na composição da microbiota e disbiose podem potencialmente influenciar uma série de condições patológicas, incluindo síndrome metabólica, obesidade, diabetes tipo 2, insuficiência cardíaca e a função cognitiva.

Um crescente corpo de pesquisas sugere que o consumo regular de produtos naturais ricos em polifenóis (vegetais, frutas, folhas, raízes, sementes, frutos silvestres, etc.) pode melhorar a saúde por meio de diferentes mecanismos que aumentam as defesas antioxidantes do organismo. Os compostos naturais representam uma importante fonte de descoberta de alvos farmacêuticos e cada vez mais despertam o interesse da comunidade científica, com o objetivo principal de validar a sua eficácia na prevenção e tratamento de diversas patologias, incluindo declínio cognitivo e distúrbios metabólicos.

A curcumina, um dos constituintes botânicos mais bem investigados na literatura biomédica, vem recebendo maior interesse devido a sua estrutura molecular única e que tem como alvo as vias inflamatórias e antioxidantes.

A curcumina fornece o pigmento amarelo/dourado brilhante característico da cúrcuma, amplamente usado na medicina tradicional indiana e chinesa há milhares de anos devido a uma série de efeitos benéficos na saúde humana.

Hoje a curcumina é usada em todo o mundo como suplemento, condimento e aditivo alimentar. É considerado um composto seguro adequado para uso diário na dieta pela Food and Drug Administration (FDA), pelo Joint FAO WHO Expert Committee on Food Additives (JECFA) e a European Food Safety Authority (EFSA) que indicaram 0–3 mg/kg como uma ingestão diária aceitável.

Curcumina, declínio cognitivo e homeostase da glicose (ações periféricas e centrais)

A insulina desempenha um papel importante na sobrevivência neuronal, na proteção de sinapses excitatórias e na formação de espinhas dendríticas através da ativação de AKT, mTOR e vias relacionadas que fazem parte da cascata de sinalização de insulina.

Estudos sugerem que a curcumina tem potencial para o controle da homeostase da glicose, uma vez que pode melhorar a captação de glicose, a sensibilidade à insulina e a função das células das ilhotas beta. Além disso, a curcumina pode reduzir os níveis de glicose e lipídios, além de reduzir o estresse oxidativo e a inflamação.

A eficácia da suplementação de curcumina em humanos foi avaliada em vários ensaios clínicos randomizados, sugerindo seu potencial para reduzir a glicose no sangue, peptídeo C, hemoglobina glicada (HbA1c), alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase (AST) em pacientes com diabetes tipo 2.

Uma meta-análise recente fornece evidências da capacidade da curcumina de reduzir o índice de massa corporal, peso corporal, gordura corporal e valores de leptina e aumentar os níveis de adiponectina em pacientes com síndrome metabólica e distúrbios relacionados.

Sua eficácia na redução da proteína C reativa (PCR) e triglicerídeos, e aumento dos níveis de adiponectina também foi relatada. Além da capacidade da curcumina de controlar a homeostase da glicose e, indiretamente, de melhorar/neutralizar o declínio cognitivo, efeitos diretos também foram observados (e estão sendo estudados) no cérebro. Na verdade, a curcumina tem recebido maior interesse devido a sua estrutura molecular única que visa diretamente a agregação amilóide, uma das principais características do Alzheimer.

Curcumina, estresse oxidativo e inflamação

As características neuropatológicas do cérebro afetado pela demência sugerem que a carga oxidativa e inflamatória desempenha um papel na progressão dos sinais patológicos, reduzindo a plasticidade cerebral, sendo, portanto, um importante fator de risco para deficiência cognitiva. A este respeito, disfunções metabólicas que são frequentemente associadas com estresse oxidativo e inflamação, podem acelerar demasiadamente a piora das funções cognitivas, promovendo o envelhecimento do cérebro e reduzindo a expectativa de saúde.

Os processos neuroinflamatórios são uma característica principal dos distúrbios neurodegenerativos nos quais a micróglia e os astrócitos são superativados, resultando no aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias. Além disso, deficiências na resposta anti-inflamatória também podem contribuir para a neuroinflamação. Mais especificamente, a neuróglia ativada pelo aumento dos níveis de NF-κB, COX2 e iNOS pode induzir, por sua vez, a liberação de citocinas pró-inflamatórias, como IL-6, IL-1α e TNF-β. Esta condição inflamatória generalizada resulta em um aumento geral na carga de estresse oxidativo, levando à toxicidade neuronal e aos déficits cognitivos subsequentes que caracterizam as doenças neurodegenerativas.

Numerosos estudos indicam que a curcumina é um antioxidante eficaz tanto in vivo quanto in vitro. O tratamento com curcumina pode atenuar a apoptose celular, diminuir o nível de peroxidação lipídica e aumentar a atividade de várias enzimas antioxidantes, incluindo superóxido dismutase (MnSOD) e glutationa (GSH), ajudando assim a quebrar o ciclo vicioso que sustenta a neuroinflamação e contém a progressão de doenças neurodegenerativas.

Considerações na suplementação de curcumina

Apesar de muitos dados sobre os efeitos positivos da curcumina para a saúde, alguns problemas limitam fortemente sua eficácia e utilidade.

Em primeiro lugar, sua baixa biodisponibilidade. A curcumina é caracterizada por baixa solubilidade em água e alta instabilidade na maioria dos fluidos corporais. Além disso, é pouco absorvido pelo trato gastrointestinal.

Na verdade, a curcumina é rapidamente metabolizada pelo intestino grosso e pelas enzimas hepáticas, levando à produção de sulfato e metabólitos conjugados. Especificamente, a curcumina que chega ao fluxo sanguíneo sofre a fase I (redução) e o metabolismo da fase II (conjugação). As redutases transformam a curcumina a dihidrocurcumina, tetrahidrocurcumina e hexahidrocurcumina (fase I), então esses metabólitos da fase I são conjugados a sulfatos e glucuronídeos (fase II).

Em estudos com animais e humanos, uma baixa concentração de curcumina no plasma sanguíneo e urina foi observada após a administração oral, em particular, os níveis séricos de curcumina são indetectáveis ​​em humanos mesmo após altas doses orais (até 8 g/dia).

Vale ressaltar que a presença de curcumina no sangue não é suficiente para garantir a entrega ao cérebro a fim de exercer atividade neuroprotetora.

Esses fatores têm impulsionado as pesquisas no sentido de encontrar formulações ou novas formas de administração capazes de estabilizar a molécula, aumentar sua biodisponibilidade, reduzir o seu metabolismo e aumentar o tempo de retenção na corrente sanguínea.

Desse modo, a administração simultânea de curcumina com piperina, óleo essencial, ou leite, foi sugerida para estimular o sistema gastrointestinal, prevenir o efluxo de curcumina e aumentar a absorção e o metabolismo.

Além disso, nanopartículas, lipossomas, micelas, complexos de fosfolipídios, emulsões, microemulsões, nanoemulsões, nanopartículas de lipídios sólidos, carreadores de lipídios nanoestruturados, nanopartículas de biopolímero e microgéis são capazes de aumentar a biodisponibilidade da curcumina aumentando a permeação do intestino delgado, evitando a possível degradação no microambiente, eventualmente aumentando a meia-vida plasmática e aumentando a eficácia da curcumina.

Nota-se que um fator importante que claramente precisa ser abordado em novas pesquisas tem a ver com o aumento de sua biodisponibilidade, bem como com o controle do impacto do estado nutricional/dieta e estilo de vida sobre os efeitos da curcumina. A dieta também pode influenciar o estado da microbiota, portanto, o controle do estado nutricional será crucial para estudos futuros eficazes.

 

Referências:
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4- Berry, Alessandra, et al. “Curcuma Longa, the “Golden Spice” to Counteract Neuroinflammaging and Cognitive Decline—What Have We Learned and What Needs to Be Done.” Nutrients 13.5 (2021): 1519.