O estigma relacionado ao peso corporal retrata um conceito social cuja aplicação resulta em graves danos, de ordem física e psicossocial, àqueles que possuem excesso de peso.

Segundo Goffman (1988), o estigma representa uma “marca” ou “atributo” para discriminar, afastar ou excluir o indivíduo que possui características discrepantes daquelas consideradas adequadas por uma sociedade. A estigmatização ocorre a partir da observação de características consideradas inadequadas e atribuição de estereótipos negativos aos portadores.

Os indivíduos que sofrem o estigma do peso podem lidar com esses maus-tratos envolvendo-se em comportamentos que comprometem a saúde. Por exemplo, uma pessoa que foi estigmatizada por causa de seu tamanho pode ter menor probabilidade de ir à academia, pois este é um ambiente que a coloca em risco de mais estigmatização. Indivíduos que se deparam com o estigma de peso também podem comer para consolar sua angústia.

Embora pesquisas anteriores tenham mostrado que, independente do IMC, o estigma do peso está associado ao aumento de comportamentos alimentares inadequados e à diminuição da motivação para exercícios, ainda se sabe pouco sobre outros comportamentos de saúde comuns, como uso de álcool e sono.

Ainda há muito a ser determinado sobre os impactos do estigma do peso em comportamentos de saúde (como atividade física, sono, uso de álcool, comportamento alimentar) e com a finalidade de examinar essa relação, um trabalho publicado neste ano, recrutou 2022 participantes nos Estados Unidos (entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020) para o Eating in America Study, onde foi investigado a relação entre o estigma de peso e vários comportamentos de saúde modificáveis. Os participantes responderam a questionários sobre estigma de peso, comportamentos de saúde, dados demográficos e medidas antropométricas.

Apesar das limitações do estudo como o uso de peso autorrelatado, necessidade de testes psicométricos adicionais e por se tratar de um estudo transversal e não ser possível estabelecer uma relação de causa, os resultados deste estudo mostram que o estigma de peso está significativamente associado a maior desordem alimentar, alimentação reconfortante, uso de álcool e distúrbios do sono, após o controle de covariáveis. Essa relação não foi observada para a atividade física.

Além disso, um IMC mais baixo pode não ser necessariamente uma “proteção” contra o estigma de peso. Na amostra observada, indivíduos em todo o espectro de peso, não apenas aqueles com IMC com sobrepeso ou obesidade, relataram estigma de peso. As análises indicaram que indivíduos com IMC mais baixos apresentaram maior transtorno alimentar e uso de álcool em face do estigma de peso.

Mais pesquisas são necessárias para a confirmação que esta é realmente uma relação causal, onde o estigma de peso pode prejudicar cumulativamente a saúde física ao longo do tempo. Tomados em conjunto, esses resultados destacam o estigma do peso como uma barreira potencial para comportamentos saudáveis ​​e sugerem que uma estratégia para melhorar a saúde da população pode estar na redução desse estigma.

Referências:
1- Tarozo, Maraisa, and Rosane Pilot Pessa. “Impacto das consequências psicossociais do estigma do peso no tratamento da obesidade: uma revisão integrativa da literatura.” Psicologia: Ciência e Profissão 40 (2020);

2- Puhl RM, Heuer CA. The stigma of obesity: a review and update. Obesity. 2009;17:941;

3- Daly M, Sutin AR, Robinson E. Perceived weight discrimination mediates the prospective association between obesity and physiological dysregulation: evidence from a population-based cohort. Psychol Sci. 2019;30:1030–9;

4- Lee, Kristen M., Jeffrey M. Hunger, and A. Janet Tomiyama. “Weight stigma and health behaviors: evidence from the Eating in America Study.” International Journal of Obesity 45.7 (2021): 1499-1509.