O dano muscular induzido pelo exercício é um fenômeno transitório causado por exercícios não habituais e intensos. É caracterizado por dano estrutural às miofibrilas e inflamação secundária resultante da infiltração de leucócitos nos tecidos danificados.

Os sinais e sintomas geralmente persistem por vários dias após a interrupção do exercício e geralmente incluem dor muscular, diminuição do limiar de dor à pressão (PPT), inchaço localizado, decréscimos temporários na capacidade máxima de geração de força e níveis elevados de enzimas intramusculares, como creatina quinase (CK), lactato desidrogenase (LDH) e mioglobina (MYO). Além disso, o dano muscular induzido pelo exercício frequentemente resulta em elevações nos marcadores de inflamação, como a proteína C reativa (PCR) e várias interleucinas.

O dano muscular induzido pelo exercício foi estudado por várias décadas e sua etiologia foi amplamente revisada em uma variedade de publicações nos últimos 30 anos. No entanto, deve-se ter cuidado ao modular a inflamação e o estresse oxidativo causados pelo exercício, pois esses resultados são conhecidos por serem uma parte fundamental do processo de remodelação adaptativa.

Diminuir os sintomas de dano muscular e otimizar a recuperação pode ser vantajoso para indivíduos que requerem uma recuperação rápida entre as sessões de atividade física, e por isso, muitas intervenções nutricionais e de suplementação destinadas a tratar os desfechos relacionados ao dano muscular induzido pelo exercício estão ganhando destaque na literatura.

Suco de cereja:

O consumo crônico de suco de cereja parece modular efetivamente os sintomas do dano muscular, pois as cerejas são ricas em antocianinas e, portanto, possuem efeitos anti-inflamatórios e antioxidantes quando consumidas em doses relevantes.

Bowtell et al. demonstraram que o consumo de suco concentrado de cereja (60 mL/dia por 10 dias) em homens treinados aumentou significativamente a taxa de recuperação de força isométrica após uma sessão de extensões de joelho (10×10, 80% 1RM) realizada após 7 dias de suplementação.

Um estudo semelhante relatou que diminuições relacionadas ao dano muscular induzido pelo exercício na produção de força e dor subjetiva durante as 96h após o exercício excêntrico do cotovelo (2×20, contração voluntária máxima) foram significativamente reduzidos após 3 dias de suplementação em idosos que consumiram 710 mL/dia de suco de cereja por 8 dias ao total.

O consumo crônico de suco de cereja (aproximadamente 60 mL de suco concentrado/dia ou 500 mL de suco/dia por 7–8 dias) parece também melhorar a função muscular, reduzir os biomarcadores do dano muscular induzido pelo exercício, e diminuir as percepções de dor imediatamente após e durante 48 horas de recuperação após exercícios de resistência intermitente ou prolongada em uma variedade de populações.

Suco de romã:

Pesquisas recentes sugerem que o consumo crônico de suco de romã pode melhorar as medidas funcionais e reduzir os biomarcadores de dano muscular induzido pelo exercício. O suco de romã é uma fonte rica em elagitaninos, um tipo de polifenol com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

Trombold e colegas descobriram que homens recreacionalmente ativos que consumiram suco de romã (800 mL/dia por 9 dias) tiveram uma função muscular significativamente maior após exercícios excêntricos não habituais (2×20, contração voluntária máxima) no dia 5 de suplementação em comparação com aqueles que consumiram um placebo isocalórico.

Esses resultados foram replicados pelo mesmo grupo de pesquisa usando homens treinados em resistência que consumiram suco de romã (500 mL/dia) por 15 dias. No oitavo dia, os sujeitos realizaram 3×20 extensões excêntricas máximas de cotovelo e 6×10 extensões excêntricas máximas de joelho. As medidas pós-exercício da parte superior do corpo, mas não da força da parte inferior do corpo, foram preservadas e a dor diminuiu em relação ao placebo durante os 7 dias inteiros de recuperação no grupo de tratamento.

Um outro estudo também demonstrou que levantadores de peso de elite que consumiram suco de romã (750 mL/dia, sendo 500 mL 1 hora antes do exercício) nas 48 horas anteriores ao treinamento de levantamento de peso de alta intensidade relataram menor dor subjetiva no ponto de 48 horas após exercício e níveis mais baixos pós-exercício de creatina quinase e lactato desidrogenase em comparação com o placebo.

Ácidos graxos poliinsaturados ômega 3:

Os ácidos graxos poliinsaturados ômega 3, como o ácido eicosapentaenóico (EPA) e o ácido docosahexaenóico (DHA), demonstraram modular a inflamação e a função imunológica, e desempenham um papel na regulação da síntese proteica do músculo esquelético. Vários estudos relataram efeitos benéficos do consumo profilático de ômega 3 na dor pós-exercício em homens, mulheres e em coortes de gêneros mistos em dosagens que geralmente variam de 0,54 a 3 g/dia por 7–60 dias.

Tsuchiya e colegas observaram que homens saudáveis que consumiram 600 mg de EPA e 260 mg de DHA por dia durante 8 semanas antes e 5 dias após o exercício isocinético unilateral de flexores de cotovelo experimentaram menos dor após 2 dias de recuperação e melhoraram a função muscular em relação ao placebo durante os dias 2–5 do período de recuperação.

Philpott e colegas também demonstraram que 1100 mg de EPA e 1100 mg de DHA adicionados a um suplemento de proteína do soro de leite, consumido por jogadores de futebol masculinos de competição a cada dia por 6 semanas antes de 12 séries de exercícios de extensão excêntrica de joelho, resultou em diminuição significativa da dor durante 72 horas de recuperação em comparação com o consumo do suplemento de proteína do soro de leite sem adição de EPA e DHA.

Por fim, Mickleborough em sua pesquisa descobriu que homens não treinados que consumiram um suplemento contendo 58 mg de EPA e 44 mg de DHA por 26 dias antes e 4 dias após uma sessão de corrida em declive exibiram significativamente menos fluxo de TNF-α e creatina quinase em todos os pontos de tempo durante o período de 4 dias após o exercício. Além disso, o grupo de tratamento também relatou significativamente diminuição da dor e reteve uma maior função muscular em 96 horas de recuperação.

Mais pesquisas são necessárias para investigar os efeitos combinados de múltiplas estratégias nutricionais ou de suplementação a fim de elucidar seu possível efeito sinérgico nos diferentes mecanismos fisiológicos relacionados ao dano muscular induzido pelo exercício.

 

Referências:
1) Howatson G, van Someren KA. The prevention and treatment of exerciseinduced muscle damage. Sports Med. 2008;38(6):483–503;
2) Owens DJ, Twist C, Cobley JN, Howatson G, Close GL. Exercise-induced muscle damage: what is it, what causes it and what are the nutritional solutions? Eur J Sport Sci. 2018:1–15;
3) Dupuy O, Douzi W, Theurot D, Bosquet L, Dugué B. An evidence-based approach for choosing post-exercise recovery techniques to reduce markers of muscle damage, soreness, fatigue, and inflammation: a systematic review with meta-analysis. Front Physiol. 2018;9:403;
4) Harty, Patrick S., et al. “Nutritional and supplementation strategies to prevent and attenuate exercise-induced muscle damage: a brief review.” Sports medicine-open 5.1 (2019): 1-17.