A sociedade está cada vez mais dependente de operações ininterruptas que exigem trabalho por turnos. Muitos setores e serviços dependem de uma força de trabalho contínua, incluindo manufatura, produção de energia, transporte, saúde, aplicação da lei e funções militares.

Esses trabalhadores, quando atribuídos a turnos noturnos, turnos matinais ou turnos rotativos, modificam seus horários de sono do período noturno normal, colocando-se em uma condição de desalinhamento circadiano.

Em 2004, foi levantado que mais de 15 milhões de funcionários americanos trabalhavam em tempo integral em turnos ou horários irregulares, dos quais 5,7 milhões de horários de trabalho exigiam um horário que deslocava o sono e forçava a vigília a ficar desalinhada com o ritmo circadiano natural. Dada essa prevalência relativamente alta, é importante compreender o impacto do desalinhamento circadiano resultante do trabalho por turnos na saúde dos trabalhadores.

Na literatura científica, está em crescimento o número de artigos disponíveis acerca dos malefícios envolvidos na alteração do funcionamento do relógio biológico (chamado de ciclo circadiano), principalmente nos “Shift workers”, que são pessoas que trabalham por turnos.

É reconhecido que esse modelo de trabalho tem um impacto negativo na saúde e no bem-estar. Historicamente, isso tem sido atribuído a efeitos adversos de longas horas de trabalho, exposição noturna à luz e fatores psicossociais – efeitos que ainda são reconhecidos como relevantes para a tolerância ao trabalho por turnos.

No entanto, as consequências, na saúde, desse tipo de trabalho devem primeiro ser entendidas em termos de um desalinhamento entre o ritmo circadiano (ou seja, quase 24 horas) do relógio biológico endógeno e o tempo do ciclo sono/vigília.

Em trabalhadores saudáveis ​​que não realizam turnos e que possuem padrões normais de sono, a vigília diurna é impulsionada pelo relógio biológico, aumentando o estado de alerta durante o dia e diminuindo o estado de alerta durante a noite. Ao trabalhar durante o dia, esses dois processos funcionam em conjunto e em sincronia com o ciclo claro/escuro do ambiente, para manter o estado de alerta enquanto está acordado e no trabalho, permitindo um sono consolidado durante à noite.

As noites de trabalho ou turnos matinais significam que o indivíduo deve estar acordado quando o impulso circadiano para o estado de alerta está baixo e adormecido quando está alto, em oposição ao ritmo biológico natural. Isso leva ao sono encurtado e interrompido e sonolência excessiva durante a vigília. Consequentemente, por sua vez, resulta em aumento de erros no trabalho, maior risco de acidentes e lesões e degradação da saúde.

O desalinhamento circadiano está associado a uma gama de resultados negativos de curto e longo prazo, relacionados à saúde metabólica e gastrointestinal, câncer, saúde cardíaca e saúde mental.

Há uma necessidade de maiores pesquisas para melhor compreender os mecanismos que fundamentam as interações entre o deslocamento do sono, o desalinhamento circadiano e os fatores comportamentais e sociais na definição de resultados adversos de saúde para trabalhadores em turnos.

Referências:
1- Härmä M. Individual differences in tolerance to shiftwork: a review. Ergonomics. 1993; 36(1–3): 101–9. DOI: 10.1080/00140139308967860
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